Conseguirá Bolsonaro transformar o caos em ordem e progresso?
Agora é com Bolsonaro
domingo,
30 de dezembro de 2018
José Augusto Filho
Assombrado pelo imbróglio
envolvendo seu filho, Jair Bolsonaro inicia mandato tendo que se esquivar dos
obstáculos lançados no caminho pelos adversários para minar seu governo.
Em sua única visita ao Brasil, em 1994, a ex-primeira-ministra
Margaret Thatcher [foto]justificou o epíteto de Dama de Ferro. Madame Thatcher,
convicta da relevância do legado deixado para seu país e o mundo, cravou frases
que marcaram sua célebre passagem pelo país: “Parece-me bem claro que o Brasil
não teve ainda um bom governo, capaz de atuar com base em princípios, na defesa
da liberdade, sob o império da lei e com uma administração profissional”, disse
para uma seleta plateia de políticos e empresários em São Paulo.
Passados quase 25 anos, a governança do Estado brasileiro parece
estacionada na mesma conjuntura trágica diagnosticada por Thatcher. Isso faz
com que o grande desafio de Bolsonaro seja reestruturar o país, ao mesmo tempo
em que administra a mais grave crise econômica da história. Em certa medida,
situação similar àquela deixada pelos trabalhistas ingleses em 1979, quando
assumiu o cargo de primeira-ministra: um país destroçado pela incompetência das
mentes imprudentes socialistas.
Contudo, a depender dos adversários, Bolsonaro não terá vida fácil
na presidência. Por si mesmo, recolocar o Brasil nos trilhos do desenvolvimento
econômico e social depois da tragédia lulopetista requerer
esforço redobrado. A sabotagem pelo estamento burocrático encastelado no poder
visando manter privilégios alargou um pouco mais a missão de Bolsonaro. Num
verdadeiro salve-se quem puder, muita casca de banana foi lançada no caminho
para desestabilizar o futuro governo.
Velhacarias do Supremo Tribunal Federal (STF) foram tratadas no último artigo
deste escrevinhador, publicado neste Observador. Como desgraça pouca
é bobagem, vale registrar ainda que, na véspera do recesso do Judiciário, um
ministro do STF liberou o reajuste dos salários dos servidores federais. A
benevolência pressiona em R$ 4,7 bilhões o já deficitário orçamento da União.
Contudo, o Legislativo e o Executivo não deixaram por menos, cada um deu sua
contribuição, em favor dos interesses de seus membros e contra o Brasil.
No Congresso, uma série de bombas fiscais foram armadas. Uma clara
demonstração de que o mandato popular se converte em extensão de negócios
particulares de políticos mal-intencionados. Propostas aprovadas ou que
avançaram no Legislativo somam um impacto de R$ 259 bilhões nos próximos quatro
anos.
A maior obscenidade, no entanto, ficou por conta do próprio
presidente da Câmara dos Deputados. No exercício da Presidência da República,
durante viagem de Michel Temer, Rodrigo Maia aproveitou para acenar aos
prefeitos, em busca de apoio para renovar seu mandato no comando da Casa. Numa
canetada, sancionou um projeto que flexibiliza a Lei de Responsabilidade
Fiscal. Por outras palavras, o gesto tresloucado de Maia liberou de punição os
municípios que passarem do limite com gasto de pessoal.
De saída pela porta dos fundos do Palácio do Planalto – Michel
Temer está sendo denunciado pela Procuradoria-Geral por corrupção e lavagem de
dinheiro –, o chefe do Executivo não deixou de fazer a alegria dos vivem de
facilidades com o dinheiro público. Dentre outras imoralidades, nomeou para
diretoria de agências reguladoras do país apaniguados políticos que não conseguiram
se reeleger. Conhecimento técnico e formação universitária, requisitos para
ocupar o cargo, foram ignorados. Importava mesmo era proteger os aliados das
intempéries.
No apagar das luzes de seu insosso governo, Temer justificou por
que foi duas vezes vice-presidente de Dilma Rousseff e criou mais uma estatal.
A NAV Brasil Serviços de Navegação Aérea S.A. se junta a outras 418 empresas
controladas direta ou indiretamente pela União, Estados ou municípios.
Orgulhosamente, o Brasil tem o maior número de estatais do mundo. Mesmo com o
país ostentando índices negativos em vários rankings, Temer saiu de
cena esbanjando autoconfiança. Ou seria hipocrisia?
Único presidente a inaugurar memorial ainda durante o mandato,
Temer apressou-se em não permitir que seu nome caia no esquecimento.
Certamente, um esforço desnecessário. Temer será lembrado, e muito, mas não por
seus feitos memoráveis. O presidente mais rejeitado da história do país será
evocado sempre por ter se apequenado diante da oportunidade perdida de iniciar
reformas profundas. Da mesma forma, será lembrado quando seus processos na
Justiça ganharem celeridade com a perda do foro privilegiado.
Todavia, o esforço do Executivo de obstaculizar o governo
Bolsonaro parece ter sido em vão. O novo presidente determinou à sua equipe
rever todas as medidas praticadas nos últimos dois meses do mandato de Temer.
Nos primeiros dez dias, uma operação pente-fino vai verificar se os atos estão
de acordo com os compromissos do governo Bolsonaro. Contudo, de imediato, pouco
ou quase nada pode ser feito relativamente aos feitos do Legislativo e do
Judiciário.
Muito foi feito para sabotar o governo que se inicia. Mas, o que
realmente tem incomodado o clã Bolsonaro é a ainda não explicada movimentação
financeira incompatível com os rendimentos do ex-assessor parlamentar de um dos
filhos do presidente. A turbulência pôs fim ao céu de brigadeiro no qual
Bolsonaro passeava sobre seus adversários.
O imbróglio remete para uma prática ilegal, porém corriqueira, de
repasse para políticos de parte do salário dos funcionários de gabinetes. No PT
de Lula da Silva, o “dízimo” é norma programática. Seus políticos aparecem no
topo da lista com movimentações milionárias. Contudo, Bolsonaro foi eleito sob
o mantra de limpeza da sujeira na qual o PT e seus aliados chafurdaram o
Brasil. O caso deve ser apurado, e a ilegalidade, punida, doa a quem doer.
À revelia da vontade da maioria dos representantes da sua classe
política, o Brasil que o capitão reformado do Exército vai governar é certamente
um país diferente. Viu florescer combativas lideranças liberais capazes de
provocar um debate alternativo à uníssona narrativa progressista que dominou a
política brasileira nas últimas cinco décadas. Mais importante, o avanço da
cidadania faz com que cada vez mais pessoas tenham clareza dos seus direitos e
deveres e assumam protagonismo na sociedade civil.
Na altura em que os brasileiros se despedem de um longo ciclo de
governos progressistas, responsáveis por conduzir o país à bancarrota moral e
material, relembrar o exemplo de Margaret Thatcher é exercício profícuo.
Obstinada e implacável em seus propósitos, fez da austeridade, da crença nas
instituições do Estado e da valorização do indivíduo cânones para recuperar a
Inglaterra, assolada pelo trabalhismo fiel ao delírio socialista.
Margaret Thatcher revolucionou seu país e inscreveu seu nome no
rol dos líderes mundiais mais importantes. Conseguirá Bolsonaro transformar o
caos em ordem e progresso? Enquanto o horizonte não se revela, lembremos mais
uma vez madame Thatcher: “O Brasil é o país do futuro, mas para tanto é preciso
decidir que o ‘futuro’ é amanhã. E, como bem sabem, isto significa que as
decisões difíceis têm que ser tomadas hoje”.
Título e Texto: José Augusto Filho, Jornalista
e doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais no Instituto de
Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. Pesquisa os desafios do
multilateralismo liberal no presente contexto de transformação da ordem
mundial. Observador,
29-12-2018 às 16:52:00
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